domingo, 4 de outubro de 2009

Agulheiro


Um Apólogo

"Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:
- Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma coisa neste mundo?
- Deixe-me, senhora.
- Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? R
epito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
- Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.
- Mas você é orgulhosa.
- Decerto que sou.
- Mas por quê?
- É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?
- Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu?

- Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados…

- Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás, obedecendo ao que eu faço e mando…
- Também os batedores vão adiante do imperador.
- Você é imperador?
- Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto…

Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana – para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:

- Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima.

A linha não respondia nada; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte; continuou ainda nesse e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.

Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E quando compunha o vestido da bela dama, e puxava a um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha, para mofar da agulha, perguntou-lhe:

- Ora agora, diga-me quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.

Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:

- Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.

Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça: – Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!"

Machado de Assis



... embora não tenha ido ao baile, ficou aconchegada numa almofadinha. Meno male!


18 comentários:

  1. Olá Judy
    Adorei o texto de Machado de Assis!!!
    E os agulheiros são um mimo!!!
    A vc uma linda semana!!
    Bj
    Nilda

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  2. Lindo o texto que você postou, faz a gente pensar. E uma fofura ímpar os agulheiros. Bons para presentinhos de fim de ano, não acha? Abraços.

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  3. Que agulheiros mais fofos!!!! Amei!!!!

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  4. Lindas as almofadinhas, lembrou-me os quadradinhos que andei fazendo para entregar às meninas do Tricoteiras Solidárias...
    bjos

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  5. que delicados, também dá p usar de sachê p gaveta né?

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  6. Amiga vc tb "colocou sebo nas agulhas"??? E tá fazendo de tudo um pouco ao mesmo tempo?? Queria a receita da multiplicação das horas, pode me passar?eheh Adorei esss agulheiros e como disse a Monica dariam belos sachês, né? E também gostei de tudo que não consegui comentar enqto andei ausente. bjsss

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  7. Quanta delicadeza, tanto o texto quantos os agulheiros. Lindos!

    Bjs e boa semana!

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  8. Judy
    Muito obrigada pela visita... O Baktus foi feito com lã Sedificada junto com uma linha que não sei qual é a marca (coisa do fundo do baú). Ele é simples de fazer... se precisar de ajuda, estou às ordens.
    bjs
    Sônia

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  9. Judy , que texto ! amo as coisas que vc garimpa e passa para nós e o jeito como vc mistura , poesia ,textos , etc com artesanato , menina!! amo vir aqui no seu cantinho ,vou contar esta historinha para as manecas de aqui de casa .Obrigada!!

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  10. Hola Judy! Que hermosos los alfileteros y que texto mas lindo, mientras leía, me imaginaba la historia. Linda!!! Gracias por compartirla con nosotras!!
    Besitos Elena

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  11. Oi, Judy!
    Será que vc não é "um pouquinho" exigente demais com vc mesma?! porque seu crochê está lindíssimo, delicado, bem-feito!! Ninguém diz que vc e ele não têm uma parceria antiga! Eu achei ótimos! E dou a maior força pra vc continuar investindo nele!
    Beijinhos e uma ótima semana!

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  12. Judy, os agulheiros ficaram lindos! Vou copiar, tá?
    E quanta sabedoria do Machado de Assis! tão real, tão atual.
    Gaia, Tarzan e o texto de autoria desconhecida, simplesmente lindos! As vezes, fico imaginado o que os cães nos tentam passar com esses olhares tão profundos, tão meigos. Sou fã deles.
    Bjs

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  13. Judy, que texto ótimo, adorei. E os agulheiros estão muito lindos!
    bjs

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  14. Oi Judy
    Que delícia de postagem!!!
    O Machado de Assis é impagável e seus agulheiros estão maravilhosos!! Esses squares podem ter mil aplicações e sempre ficam perfeitos!!!
    Parabéns!!
    bjks
    Lia

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  15. ai, os agulheiros, dá até vontade de costurar!!!

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  16. veronicatrapinho@gmail.comsexta-feira, abril 16, 2010

    Ola vim conhecer seu blog,adorei,amei os seus agulheiros,estou encantada vou tentar fazer um para mim e que sou uma aprendiz das agulhas e fico maravilhada com tudo isto do croché. Se poder passe no meu cantinho sua opinião e muito importante para melhorar os meus trabalhinhos http://veronicavendas.blogspot.com/ BEIJINHOS e tudo de bom.

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  17. linda historia do nosso escritor Machado de Assis. amei os agulheiros muito bom gosto. bjs

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